9º Episódio da série ”Eu existo e me movo”

Você sabia que a universidade tem projetos arquitetônicos de acessibilidade em discussão? Eles foram criados para servir de referência, ampliar os debates sobre o tema e, é claro, serem aplicados nos campus da UFMG. No último episódio da série “Eu existo e me movo: experiências e mobilidade de pessoas com deficiência”, o professor da Escola de Arquitetura da UFMG, Marcelo Guimarães, fala sobre projetos e desafios para uma universidade mais inclusiva.

Produção: Fernanda Neri

Fernanda: A Rádio Terceiro Andar apresenta a série especial “ Eu existo e me movo”, em que pessoas com deficiência que circulam pela universidade falam sobre suas vivências neste e em outros espaços. Você sabia que a universidade têm projetos de acessibilidade? Eles foram criados para servirem de referência, ampliar discussões e também para serem aplicados no campus da UFMG. Neste programa, vamos conhecer  o professor da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, Marcelo Guimarães, que é o coordenador do ADAPTSE- Laboratório de Acessibilidade em Design e Arquitetura para Pesquisa e Treinamento em Serviços de Extensão. Ele falou um pouco sobre esses projetos e os desafios para uma universidade mais inclusiva.

Marcelo: Meu nome é Marcelo Pinto Guimarães, sou professor de Arquitetura. Eu tenho doutorado na área de acessibilidade universal que fiz na Carolina do Norte. Eu coordeno o  laboratório de pesquisa e de serviços de extensão, na UFMG, chamado ADAPTSE, que significa Acessibilidade em Design e Arquitetura para Pesquisa e Treinamento em Serviços de Extensão. O nome já diz o que se trata. Eu já fiz vários trabalhos de acessibilidade e trabalho na área desde a década de 80. No laboratório nós já fizemos trabalhos de assessoria técnica, inclusive para a UFMG. Porque entrei nessa história? Entrei nessa história pela própria tentativa de definição do problema durante o processo do “Campus 2000”. Com a construção de novos edifícios, as mudanças das unidades e o aumento dos campi.

O campus Pampulha, lógico, é uma área extremamente peculiar, diferenciada, é muito agradável devido a natureza estar em volta. A necessidade de manter uma pavimentação que absorva a água da chuva sempre foi uma diretriz e por isso você vê o calçamento  todo cheio de poliédricos. Mas, em termos do pedestre, o campus nunca apresentou uma real abordagem de segurança e mobilidade, até recentemente. Então, nós fomos chamados e trabalhemos em dois projetos. Um deles é chamado “mapas de acessibilidade no campus”.  Nós sempre trabalhamos na região central do campus, a Avenida Mendes Pimentel em direção à Praça de Serviços, a reitoria de um lado e algumas unidades que estão por ali. Quer dizer, ali é como se fosse um grande laboratório de diagnóstico que pudesse ser aplicado ao restante do campus.

Fernanda: Marcelo Guimarães explica que um dos braços do projeto de acessibilidade, o Campus 2000, foi a criação de um mapa para mobilidade na UFMG.

Marcelo: Nesses dois trabalhos, um abordava a questão do mapeamento na seguinte ideia: qualquer coisa  feita em relação a acessibilidade no campus, no passar dos anos, deve ser registrada. Inclusive para demonstrar historicamente a evolução da tecnologia e do conhecimento aplicado lá. Como também criar perspectivas de como poderia ser o desenvolvimento de mecanismos de diálogo com quem usa para que as pessoas possam contribuir. Então, o registro das intervenções no campus feito através de mapas tem essa função.

Você imagina querer ir no campus por causa de uma determinada cerimônia ou evento qualquer, mas se você nunca foi lá já começa a se perguntar como chegar. Como chegar  lá já é um problema que está vinculado também às pessoas que têm algum problema de percepção, problema de coordenação motora ou problema cognitivo. Cada esforço que é feito numa determinada direção deveria, de certa forma, ser recompensado com recursos que permitam a pessoa perceber que está indo para o local certo, senão é um desgaste muito grande.

Então, nós fizemos esse trabalho levantando a questão dos pisos, levantando a questão das travessias e tentando posicionar mapas de referência em que as pessoas pudessem se orientar. Esses mapas foram gerados e com isso a gente procurou orientar o pessoal do planejamento sobre como fazer as coisas.

Fernanda: No Campus 2000, o professor também atuou na análise de projetos.

Marcelo: No campus 2000, nós também trabalhamos dando suporte aos projetos. Não quer dizer que a gente fez os projetos, pois na verdade não era nossa função. Nossa função foi analisar os projetos que estavam sendo feitos e apontar, de acordo com a norma técnica, a acessibilidade, onde é que poderiam haver falhas, onde mesmo seguindo a norma técnica poderíamos contribuir com algo a mais para a qualidade da experiência… Então, isso foi feito em várias unidades, inclusive para os CADs. Mas de certa forma o diálogo sempre foi esse: a gente propor coisas e o próprio campus digerir isso. Estamos vendo na internet que sempre houve informações sobre isso.

Fernanda: O guia “Roda de Acessibilidade no Campus” é outro projeto acompanhado pelo professor. Ele conta mais sobre isso.

Marcelo: Através de modelinhos gráficos de um aplicativo que se chama sketchup, nós fizemos apresentações do campus. Tanto da reitoria, como da praça de serviços, inclusive considerando a aplicação de ciclovias. Com isso poderíamos ver e estudar o que seria possível de ser feito e levantando os problemas. Você definir piso, uma orientação tátil, e daí toca numa ciclovia ou  um cruzamento mais complexo que envolve mais pedestres… Quando fizemos isso, havia duas estagiárias e rendeu mais ou menos um ano de trabalho. Primeira etapa foi levantamento, tirando muitas fotografias, interpretando fotografias e comparando com as normas técnicas… Daí, a gente foi descobrindo certos estudos e casos que poderiam ser aprofundados.

Na segunda etapa, modelos foram feitos, por exemplo, desde as portarias dos campus até bem mais a frente. Porque não se pode pensar em acessibilidade num determinado local e não entender como se chega até eles. Mesmo que a área fosse central,  a gente procurou demonstrar as rotas e percursos que as pessoas fazem para chegarem no Campus. Pela Avenida Catalão, por exemplo, próximo a Escola de Educação Física, a entrada tem uma sequência de quebra-molas, tem aquelas câmeras… Você percebe que aquilo ali é completamente avesso ao benefício do pedestre. Então, nós tratamos aquilo para demonstrar que naquelas faixas elevadas haveria a possibilidade de criar passarelas. Assim, facilitaria para as pessoas a travessia de um lado a outro, do ponto de ônibus até à escola e vice e versa. Os pontos de ônibus foram trabalhados e quando chegamos nessa parte da Praça de Serviços também discutimos a possibilidade de colocar ali um posto de serviços de aluguel de bicicletas. E pensamos em colocar na portaria também.

São alguns trabalhos de cunho acadêmico, partindo da ideia de demonstrar a aplicação de um conhecimento e a partir disso servir como referência para o pessoal que trabalha lá para, de fato, poder aplicar isso e discutir com mais profundidade.

Eu acho que o campus da Pampulha tem uma importância muito grande na cidade pelo tamanho.  É uma verdadeira cidade, considerando a população que aqui circula. Então, criar soluções bem sucedidas que envolvem não só aplicação de conhecimento avançado, mas também um processo de avaliação contínua, pode servir de modelo para a real cidade e não vice e versa.

Nesse aspecto, em relação a acessibilidade, eu acho que nós estamos tendo a oportunidade de imaginar o campus mais a frente, daqui a alguns anos. É isso que faz acessibilidade se algo vivo.

Fernanda: O  conceito que Marcelo Guimarães  trabalha é o de acessibilidade universal. Ele explica  o que é.

Marcelo: O que é isso? Eu procuro entender como uma pessoa que anda em cadeiras de rodas funciona dentro de um espaço, eu procuro entender como uma pessoa que não enxerga, lê o ambiente. Mas não procuro resolver esses problemas de uma maneira  isolada. Eu tenho que incorporar isso numa solução que seja benéfica para todos.

Fernanda: Ainda há muitos pontos a serem melhorados para que a universidade se torne mais acessível. O professor comenta sobre como incorporar acessibilidade no dia a dia.

Marcelo: Uma coisa é preciso comentar: acho que é muito falho e precisa ser aprimorada a questão do transporte interno. Os ônibus que circulam na UFMG não têm acessibilidade de fato e os pontos de ônibus também são mal localizados, muitos deles em ruas íngremes. Então, o que acontece a uma pessoa que tem problema de mobilidade ou que tem algum problema circunstancial é depender de um veículo particular, uber, cabify… Para a pessoa que usa cadeira de rodas é ainda mais complicado porque o carro nem sempre é um veículo que consegue acomodar bem o equipamento, uma cadeira motorizada. O que eu tenho de experiência tem a ver também com o fato de que o campus da Pampulha não tem vínculo direto com o campus aqui da Saúde. Poderia haver um transporte de ligação entre os campi. Fala-se em integração entre as unidades da universidade, mas essa integração campus Pampulha – campus Central não existe. A compra de vans e de elevadores adaptados, que permitiriam  aos estudantes que têm problemas de mobilidade circular pelas unidades da universidade é um compromisso que a universidade tem que fazer.

A partir do momento que a pessoa está dentro de sistema, a grande pergunta que se faz é o que o sistema oferece para acolher. Isso não dá garantia a pessoa de benefício continuado. Mas se ela está dentro do sistema, dentro da universidade, é interesse do sistema que ela seja bem sucedida. Então, a infraestrutura deve servir para isso. Em várias unidades hoje, justamente por causa do problema que se coloca pela legislação da inclusão ampla, existem comissões de diferentes colegiados que discutem como atender pessoas com deficiências. O que acaba acontecendo são as estratégias de “apagar incêndio”. Espera-se que uma pessoa com deficiência apareça e ela tenha necessidades específicas, então pensa-se  como resolver isso. Então, vai resolver o problema daquela pessoa em específico. Se ela não falece, ela vai sair da universidade, então no momento que ela sai, o problema volta a ser exatamente como era antes, ou seja, nada é feito. O que é preciso fazer com acessibilidade programada é garantir que isso seja um processo, e que haja um estímulo que mais e mais pessoas com deficiência venham e que quando cheguem, o sistema já esteja implantado. Então se essas vãs não estão sendo usadas no horário de aula, elas podem ser usadas para outras atividades, mas reservando isso. É o que acontece em vários universidades do mundo. São coisas que incorporam acessibilidade no dia a dia e isso é o que eu poderia dizer que se trata de um processo de inclusão. Outras formas são só rótulo. Inclusão não deveria ser tratada como rótulo, pois são processos inclusivos.

Fernanda: Para finalizar, o professor fala  sobre as dificuldades de acessibilidade na área da comunicação.

Marcelo: Por exemplo, quando você entra no site da UFMG, você vê a necessidade que se tem de garantir que esse site seja realmente acessível, não só no sentido de fazer com que seja o texto seja lido em voz alta para quem não enxerga. Mas que a pessoa, ao entrar na unidade, ela saiba a quem se dirigir, se o problema dela já foi alguma vez equacionado e quais são os recursos disponíveis. Isso ainda está muito longe, não tem isso. A perspectiva de acessibilidade é essa mesmo, que haja aprimoramento ao longo do tempo, mas tem que haver planejamento e também transparência.

Fernanda: Você ouviu o depoimento do professor da Escola  de Arquitetura da UFMG, Marcelo Pinto Guimarães, para a série especial “ Eu existe e me movo: experiências e mobilidade de pessoas com deficiência”. Eu sou a repórter Fernanda Neri para a Rádio Terceiro Andar.

Transcrição produzida por: Jude Civil

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