8º Episódio da série ”Eu existo e me movo”

Paratleta e militar do exército, Denilson Souza é de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e concedeu uma entrevista especial para uma aluna intercambista do Sul, Caline Gambin.

Já Márcia Paiva, mãe da cadeirante Thais, mudou de vida para realizar o sonho da filha: conquistar o diploma em Psicologia, na Universidade Federal de Santa Maria, também no sul do país.

Produção: Caline Gambim

Caline: A Rádio Terceiro Andar apresenta a série “Eu Existo e Me Movo: Experiências e Mobilidade de Pessoas com Deficiência”, em que pessoas com deficiências que circulam pela universidade, falam sobre suas vivências neste e em outros espaços. Eu sou Caline Gambim e faço Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. Neste semestre, estou realizando mobilidade acadêmica na UFMG. Lá na UFSM eu faço parte da equipe do programa Gritos do Silêncio da Rádio Universidade. O programa procura trazer assuntos que não são debatidos na mídia hegemônica, sempre buscando dar voz e protagonismo a quem é esquecido.

Neste programa, conversamos com Denilson Souza, que já foi entrevistado do Gritos do Silêncio. Ele é de Santa Maria e pratica vários esportes, entre eles, o basquete sobre rodas, que é um projeto da UFSM. Denilson é cadeirante há 11 anos e hoje nos conta um pouco da sua relação com o esporte. Confira!

Denilson: Olá, pessoal de BH! Meu nome é Denilson Souza, eu sou de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Eu sou paratleta, militar do exército, atualmente na reserva e praticando várias modalidades paradesportivas. Dentre elas, a canoagem, o ciclismo, o basquete, corrida de rua, enfim, várias modalidades para, exatamente, incentivar o pessoal. Para chegar e motivar. E até revelar aqueles talentos que muitas vezes estão guardados. Assim como tem as Olimpíadas, tem também as Paraolimpíadas. Temos muitos talentos que ficam guardados às vezes por falta de opção. Como o esporte adaptado realmente demanda uma certa atenção e também um custo, o caminhar é difícil, mas não é impossível. É um trabalho de formiguinha aqui em Santa Maria. Também sou presidente da Assampar – Associação Santamariense Paradesportiva, que tem como finalidade promover o esporte adaptado, seja por lazer ou auto rendimento.

Tudo isso surgiu em 2006. Aconteceu um acidente em que eu caí do telhado e fui parar numa cadeira de rodas – encurtando um pouquinho o assunto, senão a gente vai se estender por um bom tempo. Conheci o esporte adaptado no Sarah Kubitschek, em Brasília, e tive a oportunidade de praticar. Quando volto para minha cidade, a única coisa que eu encontrei de esporte adaptado foi um projeto da Universidade Federal de Santa Maria, onde eu tive o prazer de também praticar o handebol***** em cadeira de rodas e tive o prazer de ser convocado para a seleção brasileira. Ali foi o comecinho da minha nova vida na cadeira de rodas e também no esporte.

Então, imagine o benefício não só físico, mas também para minha família! Porque eles também sofriam. “Como vai ser agora a vida do Denilson?” – era um monte de perguntas e que só ao longo do tempo iríamos ter essas respostas. Então, realmente, o esporte proporcionou não só uma mudança na minha vida, foi na vida da minha família, dos meus amigos… Hoje, graças a Deus, da sociedade. Como eu disse, é um trabalho de formiguinha porque, o que eu tenho feito? Saio da minha casa já com minha bicicleta, sozinho, e vou pedalando para ir treinar o basquete. Então, no caminho encontro várias pessoas, hoje tenho vários amigos. Isso que é legal. Algumas pessoas curiosas chegam para saber: “olha, como você faz? ”. Eu paro, a gente conversa, a gente explica, e isso é muito gratificante. Isso tem trazido bons resultados no sentido de que as pessoas estão vendo com bons olhos. E é assim que tem que ser. Eu não precisei me deslocar, sair da minha cidade para procurar um esporte onde eu me encaixasse. Nós estamos criando oportunidades aqui mesmo, em Santa Maria e região, onde a gente puder chegar e promover o esporte adaptado. Não só para as pessoas com deficiência porque hoje tem várias pessoas ditas – entre aspas – normais que estão praticando a corrida de rua, por exemplo. Pessoal chegou e disse: “olha, depois que eu vi o Denilson correndo na rua, eu me motivei”. Eu fico feliz com isso. Não é que o Denilson seja “o cara”. Não é nada disso. Mas que legal que, através do exemplo, essa pessoa criou coragem, saiu da zona de conforto, encarou e hoje está lá, praticando o esporte seja por lazer ou auto rendimento. Isso é muito legal.

Para alguns esportes que eu pratico, como eu disse, a canoagem, o basquete, o ciclismo, eu tenho que praticar mais devido ao acesso. Santa Maria é uma cidade em desenvolvimento, como todas as outras que estão crescendo. E, realmente, é uma cidade universitária e eu também sou militar da segunda maior quartel-ação do Brasil, que é aqui em Santa maria. Então, é uma cidade grande. E eu preciso, de alguma maneira, convencer essas pessoas a abrirem seus espaços. Seja um clube, que esse clube se atente e comece a pensar nos seus associados na terceira idade, na melhor idade. Eu não desejo para ninguém, mas um associado não está livre de sofrer um acidente e parar numa cadeira de rodas. E aí? O que o clube vai oferecer para esse associado que sofreu esse acidente, que está nessa situação? Isso é uma das coisas que eu quero, essa é a bandeira da inclusão social. Está sendo legal, mas como eu disse, é um trabalho de formiguinha, que é a longo prazo. Talvez eu nem veja esses frutos, mas não tem problema nenhum. A ideia é começar.

Caline: Dona Márcia também já foi entrevistada do Gritos do Silêncio e ela vai nos contar como é viver na universidade com a sua filha. Largar a casa em Santana do Livramento, sudoeste do Rio Grande do Sul, mudar completamente a rotina e ir viver em Santa Maria: foi isso que Márcia Paiva fez em março de 2015. Mas o que a motivou? A possibilidade de sua filha Thais possuir um diploma de graduação. Thais cursa Psicologia na Universidade Federal de Santa Maria e é cadeirante. Moradoras da Casa do Estudante Universitário, Dona Márcia conta um ponto sobre a sua vivência com a filha na universidade, as dificuldades e também as alegrias.

Márcia: Eu tenho algumas dificuldades… Ainda tem calçadas que ainda não estão completamente prontas com rampas, isso ainda está sendo feito. Na entrada da universidade, eles ainda estão trocando o cimento agora e colocando as rampas. Há prédios sem elevador, não são adaptados. Eu até te falei sobre um prédio em que a porta tinha entrada de cadeirante, mas que a escada fechava a porta de cadeirante. Aí arrumaram para ela conseguir ir fazer a disciplina, deu para entrar. O que se vê também, por exemplo, muitos prédios que não têm acessibilidade nenhuma, não tem elevador, não tem como subir. Mas damos um jeito quando precisa, há pessoas que ajudam quando precisamos subir.

Caline: A UFSM atende as necessidades que a senhora identifica?

Márcia: Toda negociação é na acessibilidade. Tem um departamento de acessibilidade dentro da universidade para quando os deficientes chegam, como no caso de quando a Thais chegou aqui. Ela foi encaminhada para o departamento de acessibilidade e esse departamento é que negocia com a reitoria.

Caline: E quanto a assistência estudantil? Para conseguir o apartamento foi fácil, foi difícil?

Márcia: Foi fácil porque o Elias, um rapaz também cadeirante, estava aqui e iria se formar bem no final do ano. E a Thais viria em março. Daí eu liguei para cá, entrei em contato com a PRAE, eles me disseram que havia esse apartamento e então logo fizemos a matricula da Thais. A única reclamação que ainda não teve retorno é o “paradão”, que você não consegue passar, tem que ficar pedindo licença quando está cheio de gente ou fazer a volta por lá, por baixo da ponte, pelas vias alternativas.

Caline: Falta compreensão das pessoas…

Márcia: É. Às vezes as pessoas estão tão cansadas quando pegam o ônibus que nem se dão conta. E não tem outro lado. O outro lado, no caso, que é aquele campo ali, vai para o meio da rua. Mas daí vai pedindo licença para chegar até aqui.

Caline: E a senhora deixou sua casa para vir atrás do sonho da sua filha?

Márcia: Sim. Atrás do sonho da Thais.

Caline: E é gratificante?

Márcia: É. O bom da história, graças a Deus, é que ela gostou do curso. Ela está em um relacionamento sério com a Psicologia, gostando muito.

Caline: Ah, que bom! Então, está valendo a pena.

Márcia: Está valendo a pena.

Caline: Você ouviu os depoimentos de Denilson Souza e também da Dona Márcia Paiva, ambos de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Essa é a série especial “Eu existo e me movo: experiências e mobilidade de pessoas com deficiência”. Eu sou a repórter Caline Gambim para a Rádio Terceiro Andar.

Transcrição produzida por: Raquel Gomes

Deixe uma resposta