7º Episódio da série ”Eu existo e me movo”

Os estudantes Nivaldo Júnior e Jonathan Gomes se deslocaram pelo campus Pampulha da UFMG com o servidor público da UFMG e deficiente visual, Helivelton Ferraz. Durante o trajeto, ele comentou alguns dos problemas de mobilidade que encontra na caminho que faz, diariamente, do ponto de ônibus da Avenida Antônio Carlos até o prédio da Faculdade de Ciências Humanas, no qual trabalha.

Helivelton também conta quais são suas estratégias para se locomover em um local completamente novo e relata suas experiências como facilitador do acesso às pessoas com deficiência aos recursos computacionais, uma das funções que exerce na universidade.

Produção: Nivaldo Júnior e Jonathan Gomes

Nivaldo: A Rádio Terceiro Andar apresenta a série especial “Eu existo e me movo”, em que pessoas com deficiências que circulam pela universidade falam sobre suas vivências neste e em outros espaços. Neste programa, batemos um papo com o servidor e deficiente visual  Helivelton de Oliveira Ferraz, funcionário da UFMG lotado no CADV, que é o Centro de Apoio ao Deficiente Visual na biblioteca da FAFICH. Ele começa a conversar nos apresentado um pouco dos problemas que encontra no trajeto que faz diariamente, incluindo a travessia da Avenida Antônio Carlos e o deslocamento pela calçada dentro da UFMG, um caminho que, segundo ele, não é adaptado para pessoas com deficiência.

Helivelton: Eu venho por essa estação UFMG Municipal, venho do Bairro Padre Eustáquio para cá. Eu pego o ônibus no anel rodoviário, na Praça São Vicente, e mais ou menos dentro de 25 ou 27 minutos eu desembarco aqui. Saindo da estação, tem esse processo de travessia. O problema começa naquele passeio onde vocês vão constatar que, quando chove, surge uma poça de lama e então é preciso fazer um verdadeiro rally universitário.

O cego tem a dificuldade de visualizar o obstáculo, então, às vezes, a bengala avisa. Outras vezes, não. Mas eu fico pensando no coitado de um cadeirante, por exemplo. Como um cadeirante transita por aqui? Esse piso de paralelepípedo é bem propício para um cadeirante cair.  Assim, estão trabalhando muito essa coisa do pleno acesso da pessoa com deficiência nas unidades acadêmicas. Só que as unidades acadêmicas não são ilhas, elas fazem parte de uma estrutura maior que a UFMG. Então, pensar acessibilidade é também pensar como a pessoa com deficiência vai se deslocar, por exemplo, da FAFICH até a FAE, que é um problema crônico de acesso. Nesse trajeto que faço aqui, eu gasto mais ou menos de 8 a 9 minutos para concluir. Um vidente, eu acredito, gastaria bem menos tempo. Vocês gastariam bem menos tempo que eu para chegar na FAFICH.

Nivaldo: Helivelton nos conta um pouco de sua experiência considerando a sua deficiência visual.

Helivelton: Eu trabalho num setor que atende pessoas com deficiência visual, o CADV.  Estou lá há três anos e vai fazer quatro anos em 2018. Essa coisa de você ter contato com alguém com problema semelhante ao seu, te fortalece de alguma forma. Hoje na UFMG nós temos uma boa leva de servidores com deficiência. Já conseguimos articular essas pessoas num grupo de WhatsApp para trocar experiências de setor e local de trabalho, clima organizacional, quais são as dificuldades do dia-a-dia enfrentadas dentro dos setores… etc. No meu caso, que trabalho com informática – eu sou técnico em tecnologia da informação aqui na federal, fui nomeado como assistente e agora como TI – não é muito difícil porque eu domino o computador e uma das funções minhas aqui dentro da UFMG é facilitar o acesso das pessoas com deficiência aos recursos computacionais. Treinamento básico para quem não domina o computador ainda, dá alguns informes, dicas de como melhorar um site… É uma experiência rica trabalhar aqui na UFMG e saber que o meu trabalho tem algum resultado, tem algum impacto. Não é um impacto de longo alcance, mas eu sei que o que eu faço melhora a vida das pessoas.

Nivaldo: Agora ele nos fala mais sobre esse processo de caminhar e da facilidade que acabou desenvolvendo por transitar pelo mesmo caminho todos os dias. Além disso, ele volta a explicar como são suas estratégias para se locomover em local novo.

Helivelton: Então, meu caro, como eu te falei, estou na federal há mais de três anos, quase completando quatro. E antes de ser servidor da UFMG, eu já frequentava UFMG pelas calouradas, por alguma atividade política… etc. Então, eu já conhecia esse terreno aqui da UFMG. A FAFICH  é quase como uma casa para mim, já era muito antes de eu vir para cá na condição de servidor público. Então, eu fui construindo essas estratégias com base no trajeto diário mesmo. Mas quando o trajeto é novo para mim, eu tento me basear nos detalhes. Uma curva que o ônibus faz, um quebra-mola que o ônibus passa que é próximo do meu ponto… Claro que nas primeiras três ou quatro tentativas eu conto com a boa vontade do motorista ou do cobrador para me informar quando eu tenho que descer. Mas nesse processo eu também vou aprendendo porque o meu papel é ter autonomia. Eu quero ter o máximo de autonomia possível para não depender das pessoas,  depender somente quando necessário, não ser uma coisa em demasia.

Nivaldo: Continuando o bate-papo, Helivelton fala sobre sua vida pessoal e sua família.

Helivelton: Bom, eu venho de uma família do Norte de Minas, do Jequitinhonha, pois meu pai e minha mãe nasceram na região de Almenara. Tenho dois irmãos, sendo um mais velho que eu dois anos e a outra mais nova quatro anos. Eu nasci em São Paulo numa época em que meus pais foram tentar a sorte por lá e aos dois anos de idade vim para Minas em definitivo. Atualmente eu moro sozinho. Era casado há pouco tempo, mas não deu certo e agora eu estou aprendendo a lidar com a casa.  É uma novidade limpar fogão, é novidade limpar a casa… Essas coisas todas são novidades para mim, mas a gente “vai dando uns pulos”, como dizem por aí, a gente vai se virando como pode.

Nivaldo: Para finalizar, Helivelton mandou uma mensagem para todos os nossos ouvintes.

Helivelton: Olha, eu vou falar duas coisas: primeiro para a pessoa com deficiência, ela tem que ter buscar o máximo a sua autonomia. Você é deficiente, mas você não é incapaz, você não tem que ser super-herói. Essa visão de que o deficiente passa tudo, “nossa o cara é foda, mexe com computador, cuida da casa, anda na rua, é um exemplo de vida”. Não! Somos pessoas iguais a todo mundo. O que nos difere é só uma limitação visual. Vocês, videntes, baseiam toda a vida no olhar. No nosso caso, temos que trabalhar os outros sentidos: o tato, o olfato, o paladar. Então, para um deficiente só depende de sua boa vontade de querer se adaptar ao mundo. O mundo não foi feito para nós, isso é verdade, não existe um mundo que acolha o deficiente. Mas o deficiente tem que se fazer acolhido. Se está ruim, grite! Se está quente, esquente ainda mais!  Mas jamais se furte de viver porque a vida é uma só! Você pode estar aqui hoje como pode não estar mais.

E para pessoas que enxergam: olha, nós não somos coitadinhos! Nós não somos nem coitadinhos e nem super heróis. Somos pessoas comuns, pagamos nossas contas, temos nossa vida, nos relacionamos, temos sentimentos, choramos, rimos. Enfim, tentem nos enxergar como um indivíduo num todo, sendo a deficiência um detalhe. Nunca nos resuma pela nossa deficiência porque isso é um erro muito grave que as pessoas cometem. E nós somos muito maiores que isso.

Nivaldo: Você ouviu o depoimento do servidor Helivelton de Oliveira Ferraz para a série especial “Eu existo e me movo: experiências e mobilidade de pessoas com deficiência”. Eu sou o repórter Nivaldo Júnior para a Rádio Terceiro Andar. Esse programa é uma produção do repórter Jonathan Gomes. Até a próxima!

Transcrição produzida por: Jude Civil

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