6º Episódio da série ”Eu existo e me movo”

O episódio traz as experiência do servidor da UFMG, Geraldo Toledo. Ele tem paralisia cerebral e narra o forte assédio moral que sofreu no trabalho por causa da velocidade com que desempenha determinadas funções, como a digitação.

Produção: Karla Scarmigliat

Karla: A Rádio Terceiro Andar apresenta a série especial “ Eu existo e me movo”, em que pessoas com deficiência que circulam pela universidade fala sobre suas vivências neste e em outros espaços. No programa de hoje você conhece um pouco da luta do jornalista e funcionário da UFMG, Geraldo Toledo, para conseguir desenvolver seu trabalho com autonomia na universidade.

Geraldo: Meu nome é Geraldo Toledo de Paiva Júnior, eu sou funcionário público, sou jornalista de formação e atualmente sou servidor público aqui da universidade. Sou portador de paralisia cerebral congênita, que acabou gerando diplegia espástica,  que gera espasmos nos braços e nas pernas. Ou seja, tenho dificuldade de coordenação motora nos braços e nas pernas e para minha locomoção utilizo bengala e, excepcionalmente, no trabalho, cadeira de rodas. E me divirto com esses dois meios de locomoção.

Inicialmente eu fui designado para trabalhar no ICEX, no departamento de Física. O departamento de Física ficava no quarto andar do ICEX. Nos primeiros dias era muito engraçado porque o departamento de Física tem estacionamento, mas para você entrar no estacionamento, para você ter acesso ao estacionamento, você precisa ter uma autorização. Isso demanda um tempo, não é muito, mas é uma semana. Nesse meio tempo eu parava no estacionamento principal do ICEX, lá em baixo.  E eu tinho que chegar até o quarto andar, no departamento de física. Eu gastava, da entrada do ICEX até a minha sala para trabalhar, 20 a 25 minutos. Porque tinha o elevador próximo, mas ele vivia com defeito. Aí eu tinha que ir até o outro elevador, que era no fundo do prédio.

 

Karla: O uso do elevador, no entanto, não era a única dificuldade. Ir ao banheiro também significava passar por muitos obstáculos. Geraldo Toledo comenta como era o acesso ao toalete.

Geraldo: O banheiro, além de ser longe, quando eu chegava lá ainda tinha  um degrau. Imagina um degrau de mais ou menos 40 a 50 cm. Para entrar no banheiro tinha que subir um degrau de mais ou menos 40 a 50 cm. Enquanto eu estive lá, eu trabalhei lá por um ano e oito meses,  a gente acaba tendo que pedir ajuda para as pessoas, para tentar superar, tentar trabalhar e viver normalmente no ambiente de trabalho.

Karla: Devido à falta de adaptações do prédio do ICEX- Instituto de Ciências Exatas da UFMG – a saída apresentada pela universidade foi transferir Geraldo de prédio. Ele conta como foi.

Geraldo: Apesar de existirem alguns esforços, principalmente por parte da chefia do departamento de física para melhorar o banheiro, existia projeto… etc etc etc. Essa dificuldade de convivência que acaba gerando, potencializou esse problema e aí eu não aguentei , não aguentei mais. Eu convoquei, pedi para que fosse feito um laudo, na esperança de que se desse alguma solução. Eu disse: “olha, eu preciso de adaptações para que eu possa me locomover sozinho e não passe por certos constrangimentos que a gente acaba passando, OK?” Só que as adaptações implicam um custo e aí o SASC  achou melhor me remover, isso um ano e oito meses depois que entrei na UFMG e no ICEX, evidentemente, e me transferiu para a FAE.

Karla: Mas no novo setor, nem tudo foram flores. Geraldo conta episódios de assédio que sofreu no novo local de trabalho.

Geraldo: Vim para a FAE, a princípio para trabalhar num determinado setor. E nesse setor, eu me deparei com uma coisa inédita pelo menos para mim. Eu sabia que existia  evidentemente, mas na minha vivência e nesse nível foi inédita a questão do assédio moral. “Mas assédio moral independe de condição física”. Claro! Evidente que independe. Você pode sofrer assédio moral por uma série de razões que independem de condições físicas. Claro! Mas no meu caso era era visível  que o assédio moral tinha a ver com a deficiência porque, às vezes, eu tinha uma determinada tarefa só que o pessoal não respeitava. Por exemplo, vamos imaginar uma tarefa de digitação. “Ah, eu preciso que você faça uma planilha para mim, numa determinada coisa.” Uma pessoa que não tem dificuldade de locomoção e coordenação, vai fazer num determinado tempo. As pessoas que estavam comigo na época não tinha esse tipo de compreensão. E isso acabou gerando uma situação de assédio moral terrível, que gerou uma repercussão enorme na FAE. Nossa senhora! Foi um negócio muito forte, principalmente levando-se em conta que é uma faculdade de educação e que tem  um grupo de estudos de acessibilidade e inclusão. Ou seja, vergonhoso.

Karla: A integração do Geraldo com o ambiente de trabalho começou  a melhorar depois que ele mudou de setor e após a elaboração de um laudo técnico para a mobilidade no prédio. Ele conta mais sobre isso.

Geraldo: Depois depois dessa situação, desse problema de assédio, minha situação institucional melhorou muito porque fui deslocado para um setor diferente dentro da unidade.  Paralelamente a isso, a direção da unidade pediu a SASC que fizesse um laudo para que fossem apontadas todas as melhorias e todas as condições que fossem necessárias para que não só eu conseguisse conviver na unidade de uma maneira saudável, como também para que eu pudesse ter minha capacidade laborativa desenvolvida da melhor maneira possível. O laudo foi feito e aí entra a cadeira de rodas, que eu falei no início que eu utilizo hoje, ela entra nesse laudo. O pessoal do SASC conversou comigo muito. Disseram: “olha, eu sei que você tem uma condição de uso de  bengalas, que você anda etc, etc. Mas o serviço público tem muito documento, muito arquivo físico, coisas que não são fáceis e que você não consegue carregar usando bengala. E você tem que pedir para outras pessoas etc,etc. Vou sugerir a cadeira.” Mas o pessoal que é psicólogo conversou comigo e disse: “Pensa bem! Você vai usar a cadeira, mas você vai ficar com mãos livres, você vai poder se desenvolver melhor.

Karla: Como Geraldo comentou, assimilar a cadeira de rodas não foi fácil. Ele fala um pouco mais sobre a sua adaptação a essa nova forma de se locomover.

Geraldo: Eu tive dificuldade em assimilar a questão da cadeira de rodas. Assimilar psicologicamente, me preparar para lidar com isso. Mas hoje e no decorrer dos últimos anos, eu me adaptei e vejo que foi um ganho porque eu consigo me locomover com mais facilidade, mais autonomia… Embora eu não utilizasse a cadeira de roda antes e  eu tivesse muita resistência pessoal em usar a cadeira, da maneira como foi feita, o cuidado com que foi feito, tanto o laudo quanto a execução do trato, eu acabei assimilando de uma maneira boa. E hoje já tem mais de 5 anos que eu uso essa cadeira e eu digo que ela é parte de mim no meu trabalho. Óbvio que, tem um ditado antigo que fala sim “às  vezes você tem que dar dois passos para trás para dar dez para frente”. E foi mais ou menos isso que aconteceu. Por não ter usado ela antes, isso me gerou um estranhamento. Mas hoje o estranhamento é absolutamente superado, hoje eu tenho consciência que a cadeira é para o trabalho, eu preciso da cadeira para o trabalho, para ter mais autonomia, para lidar melhor com os meus afazeres. Aí eu chego na FAE todo dia de bengala e o pessoal da portaria avisa, já me conhece. O porteiro vai lá, pega a cadeira onde ela fica aguardada, vem – com a autorização da direção -, para a cadeira, eu sento, ele me ajuda a entrar dentro da unidade por causa do piso, e de lá vou sozinho, vou até a minha sala para  desenvolver minha atividades.

Karla: Apesar das dificuldades que enfrentou na sua trajetória na UFMG, também ocorreram episódios em que Geraldo se sentiu respeitado e valorizado. Ele lembra deles com muito carinho.

Geraldo: O atendimento ao público tem um episódio que me emocionou muito.  Alguns, eu acho… Mas esse, para mim, é muito emocionalmente. Isso porque eu cheguei no setor e o setor estava fazendo uma mudança estrutural  de posicionamento de postos de atendimento. Tinha uma estrutura que era uma sala com uma porta convencional. Na parte da frente havia três postos de atendimento e mais dois no fundo. Ou seja, cinco pessoas trabalhando. A chefe na época falou assim:  “Você vai se posicionar na frente”. Eu, surpreso: “Oi? Na frente? Mas eu mal cheguei!” Tinha apenas alguns dias de minha chegada e já ficar na frente, sem saber nada? Mas ela me respondeu assim: “Você não tem que saber nada, você está chegando agora, você não está sozinho. Tem mais 4 pessoas aqui, não tem? Todo mundo aqui pode te ajudar.  Você vai ficar na frente”. Lógico que, no calor de um desafio, você não repara muito a intenção da chefia em fazer isso. Mas depois, de cabeça fria e já adaptado, eu entendi que ficar na frente era fundamental para que eu pegasse o ritmo, que eu estivesse lá para repetir uma mesma coisa duas vezes, três vezes, dez vezes. E por outro lado, do ponto de vista do público, era importante que o público entendesse que eu fazia parte do sistema,  que apesar de eu ter minhas dificuldades, eu fazia parte do grupo.

As pessoas que estão entrando hoje nessa condição, elas têm uma situação muito  mais tranquila do que a minha naquela época. Eu tenho orgulho porque eu ajudei a pavimentar o caminho para essas pessoas, com toda a humildade do mundo, para que elas tenham uma condição muito mais tranquila do que a minha de quando eu entrei. Isso é muito legal! A gente espera que melhore cada vez mais.

Karla: Você ouviu o depoimento de Geraldo Toledo para a série especial “Eu existo e me movo: experiências e mobilidade de pessoas com deficiência. Eu sou a repórter  Karla Scarmigliat para a Rádio Terceiro Andar.

Transcrição produzida por: Jude Civil

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