5ºepisódio da série ”Eu existo e me movo”

Transpor barreiras arquitetônicas, digitais, pedagógicas e de convivência são alguns dos muitos desafios vivenciados por pessoas com deficiência. O servidor da UFMG e deficiente visual, Abel Passos do Nascimento Junior, trabalha justamente para que essas barreiras deixem de existir. Os estudantes Nivaldo Júnior e Jonathan Gomes conversaram com ele sobre os programas de acessibilidade da UFMG em que atua e a importância deles para as pessoas com deficiência.

Produção: Nivaldo Júnior e Jonathan Gomes

Jonathan: A Rádio Terceiro Andar apresenta a série especial “Eu existo e me movo”, em que pessoas com deficiência que circulam pela universidade fala sobre suas vivências neste e em outros espaços. Neste programa, entrevistamos o servidor e deficiente visual Abel Passos do Nascimento Júnior, funcionário da UFMG lotado no CADV que é o Centro de Apoio ao Deficiente visual da biblioteca da FAFICH.

Abel: A minha experiência com UFMG na verdade começou em 2010 quando me tornei aluno da Psicologia. Então, já tem algum tempo que eu convivo aqui dentro do campus e dentre as dificuldades que uma pessoa com deficiência, no meu caso deficiência visual, encontra,  na verdade, são vários. A dificuldade arquitetônica é uma delas. A gente trabalha com vários tipos de dificuldades que são: barreiras arquitetônicas, barreiras atitudinais, barreiras digitais e barreiras pedagógicas. São basicamente esses quatro eixos.

O que são cada uma dessas coisas? A barreira arquitetônica diz respeito ao espaço físico. A barreira digital diz respeito à acessibilidade em relação aos equipamentos eletrônicos, computadores, celulares e coisas do gênero. A  acessibilidade pedagógica diz respeito ao acesso o material didático. E, para mim, a mais complicada de todas é a barreira atitudinal, que depende da comunidade, depende das pessoas que te cercam. E muitas vezes as pessoas com deficiências são desqualificadas nos seus potenciais porque, geralmente, os outros focam muito mais na deficiência do que nas possibilidades que a pessoa tem.

Jonathan: Como ouvimos, existem vários tipos de barreiras para as pessoas com deficiência, conforme nos contou Abel. Ele nos contou também sobre as dificuldades arquitetônicas para se deslocar pela UFMG.

Abel: Eu sei que as barreiras arquitetônicas dentro da UFMG são enormes, seja para as pessoas com deficiência visual,  seja para os cadeirantes… Não tem um piso tátil interno e externo no campus, rampas de acesso são poucas… Eu posso muito bem andar, por exemplo, por uma escada para poder acessar um nível a outro,  mas o que acontece é que às vezes as escadas não têm corrimão. Do lado do prédio da Letras, indo para o CAD 2, por exemplo, tem uma escada que não tem corrimão. Tem uma escadaria que dá acesso a cantina, que sai próximo a sala 1012, que, há  muito pouco tempo, quando eu entrei no curso de Psicologia, não tinha corrimão. Durante o meu período no curso de Psicologia, durante o período que eu estudei é que o corrimão foi colocado lá. Então, são coisas desse tipo que são questões de segurança para quem está se deslocando, seja pessoa com deficiência ou não. Porque se você anda por uma rua esburacada, estará mais sujeito a ter dificuldade passar por esses locais ou mais sujeito a acidentes. Mas também pessoas que enxergam estão sujeitas a acidentes, então eu peço a outras pessoas para me ajudarem. Ás vezes eu sei qual é o caminho, eu sei por onde eu preciso passar, pelo costume mesmo com aquela rota, mas é muito mais seguro eu estar caminhando com uma pessoa que enxerga no meu lado me conduzindo do que estar caminhando sozinho. Coisa que não seria necessária se existissem os pisos táteis, por exemplo. As dificuldades são várias e aí você acaba demorando mais num deslocamento, seja para entrar ou sair de um prédio, seja para se deslocar até qualquer área dentro do próprio prédio. Para ir num departamento, num banheiro, numa cantina… Enfim, aí você tem que começar a criar os seus próprios meios de deslocamento, de recurso.

Jonathan: Nessa parte do programa, Abel nos disse um pouco sobre o Centro de Apoio ao Deficiente Visual – O CADV, sobre o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão – NAI e sobre a importância que esses órgãos têm para as pessoas que, como ele, possui algum tipo de deficiência.

Abel: Para mim foi uma grata surpresa saber da existência do CADV. Então, o CADV foi o departamento que me deu todo suporte pedagógico para que eu pudesse concluir meu curso de Psicologia. Hoje em dia com o NAI a gente atende outras deficiências, pessoas com transtornos, pessoas com deficiência intelectual, pessoas com deficiência auditiva, cadeirantes… Ou seja,  não é uma coisa mais exclusiva das pessoas com deficiência visual. Antigamente só existia o CADV e eu fui, digamos assim, beneficiado em 2010 pela existência do CADV, mas hoje qualquer pessoa com deficiência pode ser beneficiado do NAI, na tentativa de, dentro das possibilidades e do alcance que o NAI tem, de auxiliá-lo nas questões de acessibilidade, seja ela física, arquitetônicas ou atitudinais.

Como havia falado, para mim, a barreira atitudinal é a mais complicado porque aí a gente se esbarra em aspectos culturais. E aí foge um pouco da nossa competência, de nossa capacidade de mudança em relação às pessoas. Mas a ideia é que a gente possa promover essa mudança ao longo do tempo. A gente sabe que as mudanças culturais são lentas, levam anos, às vezes séculos para que aconteça, mas em algum momento tem que começar para que a mudança aconteça, senão não acontece nunca.

Jonathan: Abel descreveu, na sequência, como foi o curso de Agentes Multiplicadores oferecido aos servidores da UFMG. Para que estes pudessem ter contato com as dificuldades das pessoas com deficiência, contribuindo, assim, para a promoção da acessibilidade nos campi.

Abel: Eu dei um curso aqui, este ano, em abril, de Agentes Multiplicadores, em que o objetivo era capacitar os servidores da UFMG para que eles tivessem contato com as diversas deficiências que existem e as dificuldades dessas deficiências, a fim de que conseguissem propor algum tipo de promoção de acessibilidade no ambiente de trabalho deles. Então, eu participei desse curso e, na verdade, estudei bastante, inclusive por estar em constante contato com CADV e com NAI.  A gente está sempre em contato com essas questões e por isso que, para mim, é relativamente fácil comentar a respeito desse tema de uma forma mais organizada.

Jonathan: Para finalizar, Abel comenta como o NAI  e o CADV identificam e acolhem pessoas com deficiência da comunidade acadêmica da UFMG. Sejam elas funcionários, professores ou estudantes, para que essas possam ter apoio para desenvolver as suas atividades dentro da universidade.

Abel: Quando você entra como servidor, ao fazer a prova do concurso, você já sinaliza a sua deficiência e as suas necessidades. E você passa por uma perícia para caracterização. Isso é feito, inclusive, por uma equipe técnica da própria UFMG, multidisciplinar, que envolve a equipe do CADV e do NAI,  psicólogos, assistentes sociais, médicos, servidores etc. Na tentativa de tentar locar os servidores com deficiência num local de trabalho onde eles possam ser produtivos, onde eles possam se sentir pertencentes, integrantes no espaço social onde eles vão conviver quando eles entram. No caso dos alunos, hoje a pessoa quando ela faz matrícula, ela já tem opção de se autodeclarar pessoa com deficiência. Então, ela já vai ter o conhecimento da existência do NAI e do CADV. Esse relatório das pessoas que se autodeclararam pessoas com deficiência chega para o NAI e a gente faz uma busca ativa, tentamos entrar em contato com essas pessoas para saber das demandas delas, oferecer o nosso trabalho, para eles saberem da existência desses departamentos que vão dar apoio pedagógico ou de qualquer outra espécie. Para vocês terem uma ideia, apesar  de ser um direito deles, a gente sabe que as questões relativas à acessibilidade das pessoas com deficiências são questões que ainda necessitam de um certo empenho, principalmente dos gestores das instituições, na tentativa de adequar, principalmente, os espaços arquitetônicos às necessidades das pessoas com deficiência.

Jonathan: Você ouviu o depoimento do servidor Abel Passo para a série especial “ Eu existo e me movo: experiências e mobilidade de pessoas com deficiência”. Eu sou o repórter Jonathan Gomes para Rádio Terceiro Andar e este programa é uma produção minha e do repórter Nivaldo Júnior . Até a próxima!

Transcrição produzida por: Jude Civiil

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