4º Episódio da série ”Eu existo e me movo”

O colunista do “Tudo Bem Ser Diferente” e estudante de Comunicação Social da UFMG, Paulo Madrid aborda questões como a independência de pessoas com mobilidade reduzida, os desafios de acessibilidade e até a como levar a vida com bom humor.

Produção: Francine Fernandes

Francine: A Rádio Terceiro Andar apresenta a série especial “Eu existo e me movo”, em que pessoas com deficiência que circulam pela universidade falam sobre suas vivências neste e em outros espaços.  Neste programa você conhece o estudante do jornalismo Paulo Madrid que tem paralisia cerebral. Produtor da coluna “Tudo Bem Ser Diferente”, da Rádio Terceiro Andar, ele mostra como leva a vida com bom humor.

Paulo: A paralisia cerebral é um problema como outro qualquer, muitas pessoas enfrentam situações piores. Claro, tive e ainda tenho algumas dificuldades incomuns, até mesmo em situações cotidianas, mas não é nada demais. Com criatividade, esforço e insistência se resolve tudo.

Francine: Mover-se e ter autonomia pode parecer natural para uma pessoa que não tem deficiência, mas para quem tem mobilidade reduzida, algumas situações podem ser muitas desafiadoras, como explica Paulo Madrid.

Paulo: O elevador é uma história à parte. A porta dele não “respeita”, a porta dele fecha em cima de você, seja você quem for. Ele vai para onde ele quiser e eventualmente é que te deixa no andar que você designou. E, principalmente, ele não tem  alarme, não tem interfone, não tem nada, não funciona nada. Então, se você fica preso é no murro mesmo. Então, possivelmente será uma complicação para alguém que tem mobilidade reduzida e que precisa dessas acessibilidades. Eu, por exemplo, não imagino dando murros na porta do elevador para me soltarem, então eu não ando sozinho naquele elevador. O próprio chão na rua onde os carros andam, é o pior que tem, eu nem tento porque realmente não dá, ali é impossível e impraticável para mim que anda com andador com quatro rodinhas, é impossível. Tem os lugares, as faixas que são mais tranquilas, mas elas também estão em tão mau estado e esburacadas! Então,  acaba que resolve, mas não resolve. Vemos uma série de coisas a se melhorar só em termos de onde estamos pisando. Isso é uma coisa que incomoda porque a gente busca a independência, sabe? Ali é complicado.

Francine: A busca pela independência levou Paulo a encontrar uma forma de superar e se adaptar às dificuldades de acessibilidade. Com ajuda de outras pessoas esses desafios se tornaram mais fáceis de serem contornados.

Paulo: Tenho muito apoio de pessoas dentro da federal para lidar com as barreiras de acessibilidade, tendo em vista a minha mobilidade reduzida. Então, nada que já tenha me proposto a fazer na federal, eu deixei de fazer por problema de acessibilidade. Sempre dei um jeito sozinho – porque na verdade eu me viro bem na federal, apesar de tudo – ou com apoio dos meus amigos, a gente consegue fazer as coisas. Com apoio do meu pai, inclusive. Quando entrei na universidade, meu pai foi junto comigo ao campus para ver os caminhos que seriam mais fáceis para andar, seriam mais curtos. E para fechar a logística do transporte também.  Então, ajudou muito tudo isso. O apoio do próprio departamento da universidade também. Eu não me lembro de uma demanda que eu tenha tido em relação ao departamento que não tenha sido atendida ou que não tenha tido os maiores esforços para atender.

Francine: O estudante Paulo Madrid redigiu uma narrativa poética para estimular as pessoas com deficiência amarem seus corpos.

Paulo: “Ame-se! Ela me disse. Olhei sem entender, como se ela estivesse falando grego e eu espanhol. Como se  estivesse me contando uma triste piada. Afinal, a pergunta de sempre: como? Como amar essa série de defeitos, principalmente aqueles mais óbvios, visíveis e incomuns? Talvez… Eureka! Urge, então, que eu diga a mim mesmo: ame seus pés que hoje claudicam sobre o seu peso, pois só assim eles poderão um dia te carregar. E no primeiro dia em que eles conseguirem te sustentar,  leve-os para jantar e depois durma abraçado com eles. Ame a sua voz que hoje falha e ofega, pois só assim ela poderá um dia ecoar para o mundo inteiro. Então, vocês viverão juntos a emoção de analisar uma Copa do Mundo, o maior espetáculo da terra! Ame seu braço! Aquele mesmo, que não estica. Não o odeie por isso. Coloque as coisas no seu alcance, faça sentir-se útil, relevante, demonstre respeito, paciência, carinho, trate-o como um pai a um filho. Então, quem sabe, um dia ele pode te proporcionar uma bela surpresa? Ame a sua mão limitada porque certamente ela foi uma das que se agarrou incondicionalmente aos míseros 5% de chance de sobrevivência que você teve um dia. Ame por inteiro esse corpo debilitado porque ele lutou por você, sobreviveu por você, deu-lhe uma vida. De que adiantaria, ser tão funcional como a maioria das pessoas e não viver? À cavalo dado não se olha os dentes! Viva!”

Francine: Você ouviu o estudante de jornalismo Paulo Madrid que tem paralisia cerebral. Esse programa foi produzido por Guilherme Assunção e por mim, Francine Fernandes e faz parte da série eu existo e me movo produzida pela Rádio Terceiro Andar.

Transcrição realizada por: Jude Civil

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