3ºEpisódio da série ”Eu existo e me movo”

A professora da Faculdade de Letras da UFMG, Michelle Andrea Murta, conta um pouco sobre a sua vivência em sala de aula como professora de Libras. Ela é a primeira surda efetivada como docente da UFMG e aponta alguns desafios enfrentados por professores e alunos surdos

Produção: Caline Gambin e Raquel Gomes

Raquel: A Rádio Terceiro Andar apresenta a série especial “Eu Existo e Me Movo: Experiências e Mobilidade de Pessoas com Deficiência, em que pessoas com deficiências que circulam pela universidade, falam sobre suas vivências neste e em outros espaços. Neste programa, você conhece a professora Michelle Murta, primeira surda efetivada como docente na UFMG, na faculdade de Letras. Para realizar a entrevista, Michelle se comunicou em LIBRAS, a Língua Brasileira de Sinais, portanto, a voz que você ouvirá é do intérprete Joe Costa. Mas é interessante perceber que apesar de não ouvirmos a voz de Michelle, sua presença é percebida pelo som de seus sussurros e gestos.

Michelle : Meu nome é Michelle Murta, eu sou surda e trabalho na UFMG há um ano. Eu passei num concurso público para professora efetiva e assim fui a primeira professora surda contratada nesta universidade, dentro do departamento de Letras. O departamento já tinha um conhecimento de Libras, já tem professores ouvintes que atuam nessa área e existe, inclusive, o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão, o NAI, com oito intérpretes, que fazem os atendimentos das pessoas surdas no ambiente da universidade. Desde cursos de extensão, pós-graduação, disciplinas isoladas, graduação… para qualquer tipo de atividade em sala de aula, atendimento de monitoria, TCC, o NAI é o responsável para atuar nessas demandas.

Raquel: Michele, através do intérprete Joe Costa, nos fala agora sobre sua experiência em sala de aula como professora de LIBRAS.

Michelle: Eu já trabalho desde 2008 como docente, professora de LIBRAS. Minha experiência na sala de aula, geralmente, é com alunos ouvintes. Por causa da legislação 10.436, que passou a exigir que os cursos de licenciatura e também de fonoaudiologia tenham a disciplina de LIBRAS, com essa exigência legal, eu passei a ministrar as aulas de LIBRAS. Assim como um professor de alemão ensinando a sua língua para um outro público precisa usar a sua língua natural, eu como professora surda, também vou usar minha primeira língua, a língua de sinais para ministrar as aulas de LIBRAS. E os alunos consideram essa interação interessante, sendo que há várias estratégias didáticas para fazer essa interação na sala de aula. Por exemplo, eu uso muito projeção de imagens. Sempre no contexto dessa interação ensino-aprendizagem tem uma parte que envolve teorias, diferente das práticas. Nas aulas teóricas, eu vou ensinar sintaxe, gramática da LIBRAS e eu preciso da atuação do intérprete junto a mim.

Raquel: Através do intérprete de LIBRAS Joe Costa, Michelle também aponta alguns desafios da mobilidade no campus, incluindo relações interpessoais.

Michelle: Isso é uma questão que traz uma série de problemas. A gente sabe, por exemplo, sobre a praça de serviços. Se eu for tentar resolver algo particular ou até mesmo do plano de saúde da própria UFMG, eu tenho dificuldade para me comunicar. Inclusive dentro da CAZU, que é a agência que presta serviços de assistência hospitalar. Neste caso, eu sempre preciso fazer uma requisição ao NAI de um intérprete que me acompanhe para que eu possa ter acesso a esse serviço. Dentro do departamento de Letras, existe um projeto de LIBRAS para todos, que permite a capacitação dos funcionários através de um curso de conhecimentos básicos da língua de sinais porque sabemos que muitos alunos e professores ingressarão na UFMG e podem precisar desses serviços nos diversos departamentos. Isso é o início de como está sendo desenvolvido, como está acontecendo. Eu sei que existem outros lugares em que essa é a realidade e que existe ainda uma barreira de acessibilidade para os surdos aos serviços básicos devido a questão da falta de comunicação. Se eu quiser usar o xeroxna Letras, por exemplo, eu tenho dificuldade para me comunicar com a atendente. Eu sempre preciso utilizar um pouco do que parece ser uma mímica para estabelecer uma comunicação. Isso é uma dificuldade real da universidade, que está caminhando aos poucos. Eu acredito que no futuro isso vai melhorar.

Raquel: Michelle também nos conta, através do intérprete Joe Costa, como é a procura pela disciplina de LIBRAS.

Michelle: Existe uma disciplina chamada Fundamentos de LIBRAS, feita online. Antigamente, ela era presencial, mas era impossível atender tanta demanda, tantos alunos que queriam fazer. Por isso foi feito um projeto e criou-se a disciplina de Fundamentos de LIBRAS online, que tem mais de mil alunos inscritos por semestre. Neste semestre (segundo semestre de 2017), por exemplo, foram abertas duas turmas, sendo que uma presencial teve sua sala lotada. Temos um professor substituto chamado Rodrigo, que também é surdo, e a turma dele teve lotação máxima. Para vocês verem que os alunos de outros cursos também têm grande interesse na disciplina de LIBRAS.

Raquel: Através do intérprete Joe Costa, Michelle fala sobre os projetos para alunos surdos na UFMG.

Michelle: Já existe uma iniciativa desde antes da minha chegada à UFMG, que luta por um curso, abrir de fato as portas da UFMG para as pessoas surdas. Nós sabemos que os surdos que utilizam a língua de sinais que são alunos da UFMG são pouquíssimos, na verdade não tem. O que temos é uma surda oralizada, que usa muito oralização e que tem até uma língua de sinais diferente, que não é exatamente LIBRAS. Esse projeto que começou há muitos anos parece que agora está progredindo, andando muito bem. A abertura desse curso é praticamente certa. O que torcemos e acreditamos é que vai começar o curso de Letras-LIBRAS, uma turma exclusiva para pessoas surdas, com 30 alunos, no segundo semestre de 2018. Faltam alguns acertos e liberações a serem feitas entre diversos departamentos, mas acredito que, sim, no segundo semestre de 2018 irá começar uma turma de Letras-LIBRAS.

Raquel: O ENEM inovou em 2017, preocupando-se em disponibilizar uma prova acessível para pessoas surdas. Pela primeira vez, a prova teve questões em vídeo traduzidas em LIBRAS para os candidatos. Estes estudantes também tiveram acesso a um tradutor por dupla de candidatos. No momento da entrevista, o ENEM ainda não havia sido aplicado, mas Michelle, através do intérprete Joe Costa, comentou sobre essa novidade, a importância da prova acessível e do feedback das pessoas surdas sobre a experiência com a prova.

Michelle: É muito importante que o ENEM seja feito em LIBRAS. A Lei 10.436 reconhece a língua de sinais como a primeira língua da pessoa surda. E o português como sua segunda língua. Vamos pensar um pouco juntas em relação a prova do ENEM. Nós sabemos que é uma prova extremamente difícil, inclusive para pessoas que ouvem e leem normalmente. Entende-se que os próprios nativos do português têm dificuldade com ela. Agora, pense para uma pessoa surda! Ela não é nativa no português. Então a dificuldade para ela compreender um texto em português é muito grande. É muito mais difícil. E por isso é tão necessário que a prova seja feita em LIBRAS. Muitas vezes, um surdo quando lê um conceito jurídico, por exemplo, ele não consegue entender, mas se ele visse esse mesmo conceito em LIBRAS, ele teria a compreensão facilitada. LIBRAS permite o acesso a informação da pessoa surda. Nós estamos esperando para ver como essa prova vai, de fato, acontecer e qual o retorno que as pessoas surdas darão sobre essa prova. Com esse feedback, com esse retorno da pessoa surda que fez a prova do ENEM nós poderemos saber exatamente qual o melhor caminho nesse sentido.

Raquel: E com a chegada de pessoas surdas à universidade, é preciso pensar em acessibilidade. Através do intérprete Joe Costa, Michelle comenta quais as necessidades e desafios a serem superados diante da adaptação a essa realidade.

Michelle: É claro que é preciso contratar mais profissionais intérpretes de língua de sinais. Isso é uma necessidade real. E tem outras coisas que precisam ser ajustadas e adaptadas para que o acesso da pessoa surda possa ser garantido no momento dessa chegada. Só que isso é um processo. Isso vai acontecendo e se desenvolvendo aos poucos. O próprio feedback das pessoas surdas sobre as dificuldades e acessibilidade na UFMG é que vai melhorar isso. A gente sente isso dentro do departamento de Letras. Às vezes, uma coisa muito simples que me dá bastante receio, que eu fico pensando, por exemplo, é sobre o meu celular não funcionar dentro do elevador. Pense comigo: se um dia eu ficar presa no elevador, como vai ser? Como vou me comunicar com as pessoas se eu estiver sozinha? Como vou avisar que estou presa, que estou passando mal? Como vou conseguir me comunicar? Então isso é um medo meu. Um receio que eu tenho, uma coisa simples, mas que me aflige. Às vezes a gente pode pensar que isso é uma bobagem, mas se você se colocasse no lugar de um surdo, que tem dificuldade ao acesso e de comunicação, isso mostraria que esse receio é real. E há outras coisas também, que aos poucos vai caminhando e se desenvolvendo no sentido de melhorar os processos. Nós sabemos que muitos surdos podem pontuar coisas que precisam ser melhoradas. Isso vai acontecer. Eu, por exemplo, tenho minha mesa, meu escritório de frente para a porta. Eu não posso ficar de costas para a porta porque sou surda. Se eu ficar de costas não saberei o que está acontecendo. Pode ser que alguém passe e me cumprimente e eu nem responda porque não vi. E aí a pessoa pensa que sou mal-educada. Mas não tem nada a ver com isso. Essas questões que envolvem a cultura e o relacionamento interpessoal dentro da universidade serão afetadas e adaptadas. Já está acontecendo esse processo no sentido de melhorias.

Raquel: Para finalizar, Michelle, através do intérprete Joe Costa, seu sonho e suas expectativas em relação à vivência de pessoas surdas.

Michelle: Eu queria muito uma coisa. Eu tenho um sonho. Um desejo meu. Trabalhar na UFMG sempre foi um sonho que eu tive e eu quero ficar aqui até me aposentar. Tomara Deus que eu possa ser abençoada nesse sentido! Eu espero, sinceramente, que a UFMG possa abrir as portas, abrir a mente e abrir o acesso para mais pessoas surdas, receber essas pessoas usuárias de língua de sinais. Eu torço muito para que num futuro próximo a gente possa entrar pela portaria da UFMG e o porteiro responder “bom dia”, “boa tarde”, em língua de sinais. Isso vai ser uma satisfação muito grande para mim porque vai respeitar meu direito como cidadã do país, um direito linguístico. Isso é o que eu espero.

Raquel: Você ouviu a professora Michelle Murta, primeira surda efetivada como docente na UFMG na faculdade de Letras. Nesta entrevista, Michelle se comunicou em LIBRAS, a língua brasileira de sinais, portanto a voz ouvida é de Joe Costa, tradutor e intérprete do NAI da UFMG. Esse programa foi produzido por Caline Gambim e, por mim, Raquel Gomes. Faz parte da série “Eu Existo e Me Movo: Experiências e Mobilidade de Pessoas com Deficiência” produzida pela Rádio Terceiro Andar.

Transcrição realizada por: Raquel Gomes

Deixe uma resposta