2ºEpisódio da série ”Eu existo e me movo”

A estudante de psicologia da UFMG, Myriam Silveira, falou um pouco sobre a sua história, a relação com a família e o estigma às pessoas com deficiência.

Produção: Helena Luttembarck

Helena: A Rádio Terceiro Andar apresenta a série especial “Eu Existo e Me Movo: Experiências e Mobilidade de Pessoas com Deficiência”, em que pessoas com deficiências que circulam pela universidade, falam sobre suas vivências neste e em outros espaços. Hoje você irá conhecer Myriam Silveira. Estudante de Psicologia e apaixonada pelo curso, ela nos contou um pouco de sua história e como é conviver com a deficiência.

Myriam: Meu nome é Myriam, eu tenho 21 anos, nasci em Passos, que fica perto de Furnas. Nasci com uma deficiência congênita e não se sabe causas exatas. Na verdade, não tem um diagnóstico ainda, um nome… Já falaram em algum tipo de síndrome, mas nada confirmado. Já se suspeitou que fosse em decorrência do uso de talidomida, mas isso é um pouco diferente do meu caso. Lá em Passos eu tive uma infância normal. Eu nunca participei de nada que envolvesse pessoas com deficiência. Na minha escola, eu fazia inglês, natação… Comecei a namorar no segundo ano do ensino médio e namoro até hoje a mesma pessoa. Faz cinco anos que namoramos. Levo uma vida normalmente, às vezes até esqueço que sou deficiente. As pessoas me falam isso e eu digo: “jura? ”. Porque eu até esqueço. É bem engraçado isso, né? Vira tanto uma rotina que a gente acaba esquecendo. A gente não, quer dizer, pelo menos eu não me coloco nesse título. Eu sempre falo que a deficiência não é separada de mim. Eu não sou uma pessoa com deficiência. Eu sou eu e a deficiência sou eu ao mesmo tempo.

Helena: Apesar de hoje Myriam conviver bem com a deficiência, existiram momentos em que ela teve mais dificuldades de lidar com isso.

Myriam: Eu acho que a fase da adolescência foi a mais difícil pra mim por causa da deficiência também. Era um pouco diferente na relação com os outros adolescentes. Na questão do namoro, na questão de sair… Era mais complicado pra mim porque minha mãe sempre me segurou muito, sabe? Ela não me deixava sair, ir pra barzinho, essas coisas. Então eu comecei a fazer isso mais velha. Começou a ficar uma coisa chata porque minhas colegas já estavam namorando, beijando, e eu na fossa.

Helena: E como ótima futura psicóloga, Myriam também nos falou um pouco sobre a influência da família na formação de pessoas com deficiência e os estigmas que a não-aceitação pode causar.

Myriam: Em relação a minha deficiência, eu acho que no começo, quando eu era criança e depois na minha adolescência, ela ficou muito mascarada. O meu pai tinha boa condição financeira, minha família sempre teve uma boa estrutura e são pessoas estudadas, mas eu ainda via um receio muito grande por parte deles de admitir aquela deficiência. Tanto que, às vezes, falar dela em casa, falar em família, é uma coisa muito complexa, por incrível que pareça, mesmo depois de 21 anos. Era sempre mascarar a deficiência com alguma coisa, com uma habilidade que eu tinha, “porque eu era muito inteligente, passei na Federal”, esse tipo de coisa, né?

Uma outra questão importante, voltando a questão da minha mãe, é que, muitas vezes, a pessoa com deficiência é muito subestimada. Isso aconteceu até comigo, pacientes que chegam até mim que tem uma deficiência muito grave, ainda mais com as outras pessoas falando que não dão conta. Eu passei muito por isso na minha vida, causa um estigma mesmo. Uma coisa que eu estava discutindo com minha professora, que é interessante de notar nas famílias. Por mais que as pessoas nasçam com a deficiência que for e seja tão visível, as famílias não aceitam e não falam sobre isso. Já é uma barreira muito grande. Eu tenho a sensação de que hoje estou mais amadurecida, consigo falar disso numa boa, para mim não tem problema, mas eu tive que me revirar, pois mexeu bastante comigo ter que tratar disso. Às vezes a não-aceitação da própria família cria todo um estigma na pessoa, foi assim no meu caso, pelo menos, a pessoa acaba ficando com muita dificuldade de conversar, falar sobre a deficiência, de conversar sobre isso, de poder ter contato com as outras pessoas…Eu, por exemplo, tinha muito medo de conversar com outras pessoas com deficiência. Eu não gostava de me envolver nesses assuntos, era algo complicado para eu discutir. Eu vejo outras pessoas com essa mesma dificuldade, não sei se pelo mesmo motivo.

Helena: Apesar da grande maturidade que Myriam já apresenta aos 21 anos de idade, ela não nasceu assim e nos conta um pouquinho sobre a sua jornada de se tornar mais consciente sobre seus direitos.

Myriam: Eu me lembro que tinha muita vergonha de passar na frente das pessoas em filas. Porque, para mim, eu não tinha esse direito. Eu queria ser como as outras pessoas. Só que é muito complicado ficar na fila e tal. Mas eu pensava, ah, tudo bem, todo mundo passa por isso. Daí uma vez fiz intercâmbio, eu fui pra Inglaterra, no meu terceiro ano. Eu fiquei um mês lá, fazia curso de Inglês e minha mãe foi comigo.  Lá, as pessoas me davam o lugar da fila. É completamente diferente. Lá eu podia ir para onde eu quisesse, podia pegar ônibus e eu só andava de ônibus. Aqui no Brasil é uma dificuldade muito grande, mas eu ando, de vez em quando. Lá eu aprendi a pegar ônibus, a ter os meus direitos. Às vezes eu estava lá no final de uma fila, daí o gerente saía da loja para me buscar e me colocar na frente. Um dia em Londres tinha uma família grande com carrinho de bebê, que ocupa o mesmo lugar da cadeira de rodas do ônibus, eles saíram para descer neste ponto onde eles não iriam descer, para que eu pudesse subir. Eu fiquei muito constrangida na época, mas eu via a educação das pessoas e pensei: “meu Deus! ”. Foi aí que eu comecei a perceber que eu tenho os meus direitos, eu tenho direito de pular fila. Hoje eu não tenho vergonha nenhuma. Eu pulo fila mesmo e não tem disso comigo, não.

Helena: Mas não se engane. Não foi só na Europa que Myriam começou a pensar mais sobre seus direitos e também questões de acessibilidade. Ela contou um pouquinho sobre como isso aconteceu aqui na UFMG.

Myriam: Em relação a acessibilidade, antes eu não prestava atenção nisso, para te falar a verdade. Eu sempre fui muito alheia a essas questões. Eu comecei a reparar quando entrei na UFMG, comecei a ver que aquilo estava me limitando, mas muitas vezes até negava que o que me limitava. Eu arrumava um jeito de fazer as coisas da melhor maneira. Mas aí eu comecei a ver que outras pessoas estavam passando por uma dificuldade maior do que eu, então eu pensei: isso está muito errado. A universidade precisa se adaptar a nós para pelo menos facilitar a nossa vida um pouco, né? Para mim não há problema em ir ao banheiro, eu consigo ir no banheiro. Mas quando eu ouvi outras pessoas falando que não iam ao banheiro na Fafich porque não tinha um banheiro acessível, eu fiquei muito brava e pensei: “peraí! ”. Comecei a respeitar mais os meus limites e ver que o banheiro feito de uma outra forma poderia ser melhor até para mim. Às vezes eu até corria riscos, entrava segurando no apoio errado, por exemplo. Eu comecei a ver que podia respeitar os meus limites e com a acessibilidade eu posso reconhecer quais são esses limites meus ao mesmo tempo em que me sinto respeitada pelas outras pessoas também porque eu me sinto inclusa.

Eu conheci um pessoal da OAB, que me ajudou em relação a acessibilidade da reitoria. Eu cheguei na UFMG e não tinha nada de acessível para mim, então eu fiquei muito brava e comecei a pedir ajuda para todo mundo. Pedi ajuda a meu professor, pedi ajuda ao reitor, conheci uma advogada, conheci o pessoal da OAB, que tem uma comissão de defesa da pessoa com deficiência. Eu acabei entrando nessa comissão, mas, por enquanto, eu não consigo participar de quase nada porque estava muito corrido esse semestre. Mas eu gosto dessa correria minha.

Helena: a vontade de Myriam de ajudar outras pessoas com deficiência vai além da questão de acessibilidade. Ela nos contou um pouquinho sobre sua relação com o curso e também do projeto de extensão que participa.

Myriam: Eu comecei o curso e abriu uma vaga de iniciação científica no Laboratório de Psicologia. Eu entrei no laboratório e estou lá desde o primeiro semestre de 2015. Dali em diante foi uma experiência muito boa. Eu me apaixonei pela psicologia. Eu comecei a me interessar pelo laboratório e comecei a ver outras pessoas com deficiência, comecei a atendê-las, comecei a ver o impacto que eu tenho em relação às outras pessoas durante a terapia, como posso ajudá-las. Então, isso está se tornando um assunto de muito interesse, que eu quero investir. Eu quero trabalhar com pessoas com deficiência, eu quero ajudá-las e entender um pouco melhor o que se passou comigo.

Helena: Por todas as coisas que faz e por todas as coisas que a já conquistou, Myriam, muitas vezes, é vista pelos outros como modelo e como exemplo de superação. Ela nos contou um pouquinho sobre a visão dela a respeito de tudo isso.

Myriam: Para mim, não há nada muito de especial. Eu sei que é um exemplo pra todo mundo, um exemplo de “superação” – e eu vejo isso também, que eu me superei – mas eu vejo isso de uma forma normal. Uma pessoa que supera desafios, coisas que ela não consegue fazer. Uma coisa no qual sou bastante teimosa é com desafios. Quando eu não consigo fazer algo, eu tenho que arrumar um jeito de fazer. Eu arrumo um jeito de fazer. Tanto que quando eu fiz 19 anos eu tirei carteira. Hoje eu dirijo, tenho carro adaptado, vou pra UFMG dirigindo… Às vezes quando estou dirigindo eu me olho e digo “nossa, nem sei como estou dirigindo, em sabia que um dia poderia fazer isso. Foram várias superações, mas eu acho que foi um crescimento como o de qualquer outra pessoa. Eu não vejo isso como uma coisa muito qualificada. Claro que algumas dificuldades são maiores para outras pessoas, mas eu tive muitas facilidades que outras pessoas não têm, como uma família que me apoiou, eu não tive problemas financeiros, muita coisa me ajudou, muitas pessoas ficaram do meu lado. Então, essas dificuldades aparecem para cada um de nós de forma diferente, não é? Isso é o que eu gosto de comunicar.

Helena: Você ouviu o depoimento de Myriam Silveira para a série especial “Eu Existo e Me Movo: Experiência e Mobilidade de Pessoas com Deficiência”. Eu sou a repórter Helena Luttembarck para a Rádio Terceiro Andar.

Transcrição realizada por: Raquel Gomes

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