1º Episódio da série ”Eu existo e me movo”

No primeiro episódio da série, o servidor do NAI, Romerito Nascimento, falou sobre as dificuldades e técnicas que desenvolveu para se locomover no campus. Na produção especial dos estudantes Caio Monteiro e Gabriel José, ele conta, por exemplo, que quase sofreu um grave acidente na universidade ao tentar desviar o caminho.

Produção: Gabriel José e Caio Monteiro

Caio: E aí, pessoal que acompanha a Rádio Terceiro Andar no YouTube e nas nossas redes sociais! Eu sou o Caio Monteiro.

Gabriel: Eu sou Gabriel José. Hoje, juntamente com a professora Sônia Pessoa, nós acompanhamos o Romerito, que é servidor do NAI – Núcleo de Acessibilidade e Inclusão da UFMG.

Caio: Ele é responsável por propor ações que assegurem mobilidade e acessibilidade para pessoas com deficiência que circulam dentro do campus.

Gabriel: Para a nossa série “Eu Existo e Me Movo: Experiências e Mobilidade de Pessoas com Deficiência”, o Romerito nos contou quais são suas maiores dificuldades em relação a acessibilidade dentro e fora da UFMG.

Caio: Ele nos contou também sobre seu deslocamento na cidade de Belo Horizonte, não é?

Gabriel: Isso! Confira a seguir o relato do Romerito.

Gabriel: Quando chegou aqui perto dos bebedouros, você disse que sabia que estava perto deles, que estava perto também dos banheiros… Como você identifica o que está próximo?

Romerito: No caso dos bebedouros, é por causa do barulho deles. Todo bebedor faz um barulho. Não sei se você consegue perceber, mas ele faz um barulhinho que se assemelha ao de geladeira. E também porque esse espaço aqui tem um eco maior devido a parede estar mais recuada. Mesmo se o bebedouro estiver desligado, eu consigo perceber que aqui é um espaço vazado, onde normalmente é o espaço dos banheiros, já que o prédio tem esse padrão.

Agora, vamos descer as escadas porque eu não uso o elevador, sabe? Elevador aqui é um problema, pois é preciso apertar o botão para chamar, depois o botão do andar desejado e depois o botão “confirma”. Mas o barulho de “confirmado” e “não confirmado” é o mesmo, portanto não consigo saber se meu andar foi confirmado. Por causa disso, não uso o elevador.

Os prédios são padronizados. Por mais que o prédio não tenha piso direcional, é possível se locomover nele com tranquilidade. Mas fora dele é um problema, pois não há nada que indique a direção e é preciso usar algumas estratégias. Olhe o pé da minha bengala! Ele é todo “comido”! Estava novinho quando chegou aqui, mas tem uns três meses que o desgaste é tanto que está quase furando. Isso porque eu preciso o tempo todo arrastá-lo em superfícies ásperas e acaba desgastando o pé da bengala.

Gabriel: E quais são os outros métodos que você utiliza para andar fora do prédio?

Romerito: Aqui fora eu uso essa “beiradinha” (um meio-fio) como minha referência, além dos sons. E eu sei que aqui tem outra árvore à minha direita porque eu já esbarrei nela. Sei que ela está por aqui! E não sei por que resolveram colocar uma lixeira fora do canteiro, quando deveriam ter colocado dentro. O material da lixeira é cortante e ainda está suja por conter lixos, então é muito perigoso.

Sônia: Já aconteceu de você cair, Romerito? E de se machucar?

Romerito: Já. Algumas vezes. Caí indo para o bandejão, pois lá tem um barranco que desce na direção da Faculdade de Ciências Biológicas. Quando eu estava vindo do almoço, não sei porque acabei me distraindo um pouco, e fui muito para a direita. O barranco é muito próximo da calçada e não tem uma beirada, separação… daí eu caí e rolei. Mas como no chão há grama, não me machuquei. A sorte foi essa!

Sônia: E você já teve outra experiência negativa? Já se machucou deslocando pela cidade?

Romerito: A gente se machuca o tempo todo. A prefeitura resolveu colocar um novo abrigo para os pontos de ônibus, que, segundo eles, é uma obra de arte. ‘”Ele é diferente, será multimídia, terá telões…”. Estão instalando esses novos abrigos. Mas de ambos os lados desse novo tipo de abrigo, há uma placa de metal com extremidades pontiagudas. Vários cegos já esbarraram a cabeça lá e saíram com um corte na testa, no supercílio… eu mesmo me cortei há uns dois meses num abrigo desses. E aqui na UFMG, acho que no final de 2014, eu caí no lago da reitoria.  O lago não tem nenhuma referência de espaço, então quando fui andar por lá, acabei caindo nele. A sorte foi cair na água, senão teria me machucado muito mais. Mas não sei o que é pior: se machucar ou perder os aparelhos eletrônicos, como eu perdi.

Ah, uma coisa interessante a dizer! Como eu sei quando posso atravessar? Vocês estão percebendo que aqui é a transição da rua com asfalto para as pedras? Quando um carro passa no asfalto, o barulho é um. Quando ele passa para a parte das pedras, o barulho é outro. Assim eu sei que estou perto de uma faixa de pedestre e que eu posso atravessar. Essa foi uma estratégia que inventei para saber onde ficam as faixas aqui, pois não temos referência nenhuma para isso.

Gabriel: Você já teve alguma experiência ruim com algum carro, em alguma travessia?

Romerito: Sim. Eu sempre sinalizo que vou atravessar, mas os motoristas dos carros parecem olhar só para frente, parece que aprenderam a dirigir olhando só para frente, nunca olham para os lados. Ou fingem que não estão vendo, né?

Eu escuto o barulho que vem vindo um carro. Daí, faço o sinal. O motoqueiro que passa agora vai parar. E parou. Viu? Eu sei que ele parou. Um carro parou à direita também… então eu posso ir. Alguns motoristas buzinam para avisar que eu posso passar e assim também vou. Após atravessar, tenho que encontrar a beiradinha do canteiro novamente. Só que neste lugar não tem meio-fio, então eu preciso acompanhar a grama.

O meu setor faz parte da reitoria, então, de vez em quando, eu preciso ir à reitoria para levar ou buscar algum documento, participar de alguma reunião… Veja o meu caminho! Vocês estão escutando esse barulhão?

Gabriel: Sim.

Romerito: Eu acho que esse barulhão vem do respirador do ar-condicionado da sala onde trabalham os servidores da UFMG da área de computação. Através desse barulho, eu encontro o caminho que me leva até o auditório da reitoria. Percebo agora que tem um “treco” no meio do caminho, que não estava aí antes. E morro de medo de passar em cima dessas grades, pois tenho medo de elas caírem e eu afundar junto. No lago da reitoria tinha um chafariz, mas ele não está ativo sempre. E foi por causa disso que eu caí, pois não tinha nada que me informasse o obstáculo, nenhum barulho.

E veja essa faixa de pedestre! Ela é irregular. Tinha que ter uma rampa. No dia que caí, fui muito para a direita. Agora estou tomando cuidado, mas onde caí foi bem aqui (indicando com a bengala o local exato da queda). Está vendo que não há nada que identifique esse lago? Na verdade, a minha intenção era passar por outro caminho, que é uma espécie de atalho, mas não deu certo e nunca mais voltei a passar por aqui.

Agora tem um lugar que é mais interessante do que meu caminho para ir para casa e eu queria mostrar para vocês…

Gabriel: Aham.

Romerito: Vamos lá, então! Esse lugar é a praça de serviços. Daí eu vou fazer uma analogia com outros espaços de Belo Horizonte para vocês entenderem um pouco sobre o quanto a referência é algo importante para o deslocamento. Olhe o buraco que tem aqui (apontando com a bengala para um vão na calçada)! Aqui já começa a dificuldade, pois tem um buraco enorme. Se você for muito para a direita, você acaba caindo nessa vala. Uma vala importante, você pode machucar o pé aqui.

Vocês perceberam que aqui começa a ficar aberto? O espaço começa a ficar muito amplo.

Gabriel: Não tem nenhuma referência.

Romerito: Referência nenhuma! Nenhuma mesmo! O que eu tento fazer é sair deste ponto próximo ao canteiro, depois viro um pouco à esquerda e tento seguir reto. Se eu conseguir alcançar a varanda da praça de serviços, beleza. Mas às vezes não dá certo.

Sônia: Romerito, como você consegue identificar o número do ônibus que você precisa pegar? Você precisa da ajuda de alguém ou você faz isso de algum outro modo?

Romerito: Olha, em Belo Horizonte, nós temos um aplicativo que se chama SIU Mobile. Nele existe uma plataforma para pessoas com deficiência. A partir do cadastro do número do cartão BHBus de gratuidade de transporte, há, nesta plataforma específica, a possibilidade de avisar para o motorista que você aguarda no ponto de ônibus. Mas temos algumas variáveis a serem consideradas. Primeiro, o sistema nem sempre funciona. Segundo, os motoristas não foram devidamente treinados ou, se foram treinados, para alguns deles isso é indiferente, eles não se importam. Você avisa para o motorista, mas você não tem garantia de que ele recebeu sua mensagem. Aí você acaba tendo que pedir ajuda à população, que é o que eu faço. Aviso no aplicativo e ainda peço ajuda a quem estiver no ponto, pedindo para que a pessoa pare o ônibus para mim. Normalmente, não temos problemas com as pessoas em Belo Horizonte. A não ser quando as pessoas vão embora e não te avisam.

Eu não compreendia porque a praça de serviços fazia curva. Eu imaginava que era um espaço reto. Por conta disso, eu sempre entrava no lugar errado, não conseguia achar os lugares, me entortava todo para andar aqui dentro, pois aqui não tem nenhum piso direcional. Nada! Um dia, alguém me explicou que a praça tem formato de ferradura e fez o desenho na minha mão. A partir disso eu consegui compreender o espaço, até mesmo onde fica a tenda. E por que falo disso? Porque não adianta a pessoa com deficiência visual simplesmente andar na cidade, se ela não conhece o traçado da cidade, do espaço. Então, por isso, os mapas táteis são muito importantes. Por exemplo, quando eu aprendi “Orientação e Mobilidade”, que é uma modalidade de curso para que a gente consiga andar na cidade e aprenda a se locomover, todo trajeto ou atividade que a professora fazia comigo, era mostrado por ela primeiro no mapa e depois ela me orientava onde ir. Sempre me acompanhando, é claro, mas ela me deixava fazer o percurso. Isso faz com que se guarde o caminho na memória. Perceber o jeito, o traçado mesmo.

Gabriel: A UFMG não tem nenhum mapa tátil?

Romerito: Não. Não tem nenhuma referência anterior para que a gente entenda o traçado dos espaços. Eu fui entender o traçado na prática, andando, encarando, explorando. Quando eu tinha tempo, eu saía andando pela universidade para descobrir e entender um pouco os caminhos. Até porque eu preciso ensinar isso para os outros alunos que têm deficiência visual. Então, eu tive que sair por aí e aprender.

Muito bom seria se eu pudesse andar aqui nessa parte, mas não posso (na praça de serviços). Invariavelmente vai aparecer um obstáculo. Então eu tenho que me jogar um pouco para a esquerda, sentir a parede à minha direita, por meio do ouvido. Isso é percebido pelo deslocamento de ar mesmo.

Gabriel: Você percebe que está perto de alguma parede?

Romerito: Isso! De alguma coisa. Por exemplo, a porta chegou, está vendo? Como eu percebi isso? Porque mudou o ar daqui. Na verdade, não sei se é porta ou janela. Já fiquei em dúvida, viu?

Gabriel: É uma janela.

Romerito: Aqui tem feirinhas, normalmente. A feira é legítima, acho a feira ótima, uma maravilha, adoro a feira, mas a UFMG não pensa em organizar essa feira de uma forma mais adequada para garantir mobilidade. Muitas vezes, eu fico impedido de ir ao banco por causa da feira, entende? Porque fica cheia de gente, de mesas, de coisas quebráveis, que me fazem ter medo de esbarrar, de quebrar, jogar no chão. Então, isso é um problema.

Gabriel: Você evita vir até a praça de serviços por conta da dificuldade de mobilidade daqui?

Romerito: Sim. Eu reúno tudo que eu preciso fazer na praça de serviços num dia só para que o stress de vir seja só por um dia. Para que eu não precise voltar outras vezes.

Gabriel: E tem algum local na UFMG que você evita sempre ou nunca vai por saber que é muito difícil de chegar lá?

Romerito: No novo restaurante universitário, o 2, que fica lá em cima. Lá é praticamente impossível.

Reparem, vocês percebem que o espaço abriu? Assim eu não consigo achar o ponto de ônibus com facilidade… E veja que incoerente: o ponto de ônibus está à direita e o ônibus passa na rua em frente, mas é distante. E ainda existem os engraçadinhos que acham que esse lugar é estacionamento, né? Um dia, eu estava parado e uma mulher teve a cara de pau de descer do carro e me pedir licença para ela estacionar o carro. Eu disse a ela que aqui não é estacionamento, que é ponto de ônibus. Imagine se aqui estiver um cadeirante, querendo pegar um ônibus neste ponto. Se o carro estiver estacionado aqui, o cadeirante não conseguirá pegar o ônibus. As pessoas não têm consciência. E, então, eu tenho que ficar praticamente na rua para esperar o ônibus porque os carros estacionados ocupam o espaço do ponto.

Vocês querem ir para outro lugar?

Gabriel: Acho que é isso, né?

Romerito: É isso? Deu para ajudar?

Gabriel: Nossa! E como!

Sônia: Nossa, eu estou impressionada porque é muito diferente a experiência da mobilidade para quem tem a visão e sempre achou que essa é uma condição natural. Nunca se questionou sobre o que é deslocar-se sem ter o sentido da visão. E não adianta fecharmos os olhos e fazermos o deslocamento. É importante que uma pessoa com deficiência visual nos mostre isso, né? Não sei o que você sentiu, Gabriel…

Gabriel: São coisas muito simples, que consideramos normal no dia-a-dia. Como as lixeiras, por exemplo. Eu não reparava em como elas são de fato cortantes, feitas de um material nem um pouco pensado para a acessibilidade.

Romerito: Não, nem um pouco! E são lixeiras novas! Onde passamos e aquelas lixeiras, é tudo novo. Foi feito já com a existência da Lei 9050, que regulamenta a acessibilidade. Ou seja, quem fez nunca nem viu a norma. Estamos dentro de uma universidade, que tem laboratórios de pesquisa, é grande, discute questões de acessibilidade na Arquitetura… mas não coloca em prática. A universidade não consultou nem o que vem produzindo de conhecimento para fazer um prédio daquele. Veja o problema de gestão aí. Nós temos outras questões, por exemplo quando falamos de banheiros acessíveis, o próprio espaço da UFMG… Há uma ”desculpa” de que a UFMG não pode ter asfalto porque pode inundar… acabamos por deixar a acessibilidade muito de lado. Eu ainda me locomovo, mesmo com toda a dificuldade, me machucando, caindo no lago, mas há pessoas com deficiência física que não saem de suas unidades.

Sônia: Romerito, você pensa que essa não-percepção desses detalhes, dessas necessidades específicas acontece porque as pessoas com deficiência estão fora dos cargos de poder, de cargos de gestão estratégica e elas não são convidadas para participar desses processos?

Romerito: Quando eu entrei na universidade, a UFMG era especialista em inclusão, ou seja, ela conseguia falar de inclusão para os outros, mas não praticava a inclusão dentro dela mesma. Depois que entramos e “brigamos” juntos, discutindo e pontuando as questões, nós encontramos alguns gestores sensíveis e que foram se abrindo a essa nova possibilidade, então pudemos mudar algumas coisas. Já mudamos as ferramentas, procedimentos, as formas de tratamento, os conceitos. Mas ainda não conseguimos mudar no físico, no real. E acho que seja por falta de consulta às pessoas com deficiência, vendo-as somente como receptoras, o que prejudica bastante o processo. Se você não me vê como alguém que pode contribuir, você vai sempre fazer aquilo que acha que é bom para mim. Daí nunca será bom, pois nunca vai atender as nossas necessidades.

Sônia: Muito obrigada por essa experiência! Foi fundamental entender os processos, entender a experiência de vocês também. Acredito que todas as equipes de reportagem da Rádio Terceiro Andar que estão circulando hoje pelo campus, estão tendo a oportunidade de compreender que é preciso olhar diferente a partir do olhar do diferente, independentemente de qual diferença é essa. Obrigada, mesmo!

Romerito: Eu que agradeço, Sônia! Estou sempre à disposição, viu, gente?

Transcrição realizada por: Raquel Gomes

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